sexta-feira, 11 de junho de 2010

Risco de vida ou risco de morte?


20 / 05 / 2007 Genéricas
A maioria das pessoas já escutou a expressão “risco de morte”, que está rondando por aí… Outro dia, desatento, soltei uma dessas enquanto visitava meus pais. Um olhar lateral, uma respirada e meu pai soltou -Filho, não é porque algum grupo de mídia resolveu matar o “risco de vida” que você deve fazer isso também. O pior é que nunca fui adepto da versão alternativa da expressão, mas resolvi pensar sobre o assunto e fui tentar descobrir quem é o inventor do “risco de morte”.

Do criador eu não tenho provas, mas pelo que pude apurar o divulgador da pérola seria um professor de português (sim, um professor de português!) consultor de algumas empresas de comunicação. O mais chocante é a justificativa para o uso de uma em detrimento da outra. Segundo um colega que viu tal programa de tv, a “razão” seria um “erro de lógica”. Aguarde, querido leitor, isso só irá ficar melhor e melhor…

De acordo com o tal “ilustrado”, não se corre “risco de vida”, afinal, há risco em morrer e não em viver. Zeus nos acuda, como um docente solta uma dessas!

Antes de seguirmos em frente, recuperei minha gramática do ginásio (Novíssima Gramática - Domingos Paschoal Cegalla) e lá encontro a seguinte definição em figuras de construção (especificamente, figuras de linguagem):

Elipse. É a omissão de um termo ou oração que facilmente podemos subenteder no contexto. É uma espécie de economia de palavras. São comuns as elipses dos pronomes sujeitos, dos verbos e de palavras de ligação… Pode ocorrer a elipse total ou parcial de uma oração…

Pois bem, “risco de vida” significa “risco de perder a vida”. Não é óbvio?! Porém o mais ridículo dessa história toda é que a expressão escolhida pelo “mestre” para substituir a “ilógica” também é um elipse. Na verdade, são duas elipses! “Risco de morte” vem de “risco de encontrar a morte”. -Ei, e a segunda elipse?- Acontece que “risco de encontrar a morte” vem de “risco de encontrar o anjo da morte”! Atualmente os gramáticos (quase) todos concordam que, em línguas, o uso (costume) é mandante. Se quisesse evitar a elipse deveria utilizar “risco de morreR“.

Um adendo, no cinema o anjo da morte ficou conhecido por ser aquele “sujeito” vestido com capa e capuz pretos e segurando uma foice com enorme cabo. Trata-se, na tradição cristã, de um dos quatro cavaleiros do apocalipse. Há um equivalente na tradição talmúdica, mas não me recordo o nome, se alguém puder enviar agradeço.

-Tá, o que isso tem a ver com esse blog? O tal “professor” (não cito o nome aqui pois não encontrei uma declaração dele fazendo tal afirmação, tenho apenas um relato), como já disse, é consultor da principal rede de comunicação do país. Esse é um risco constante de qualquer tipo de consultoria (esse blog incluso): apontar erros que não existem. Cria-se um problema onde não há nada errado, ou pior, erra-se onde está tudo certo para justificar a “consultoria”.

Resumo da ópera, sempre que um consultor apresentar algo bombástico, muito utilizado mas, segundo o consultor, completamente errado e que ninguém havia percebido, desconfie. E desconfie de novo.

-Ahh, então vou desconfiar desse artigo também!



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