Um site para você se aproximar das decisões do Congresso Nacional que afetam diretamente a sua vida.
Vote e seja ouvido.
Vá em: Vote na web: http://votenaweb.com.br/
Nesse site tem enquetes feitas por políticos, ou partidos, etc, relacionadas aos projetos que eles propuseram para votação.
Podemos dar a nossa opinião sobre tais projetos.
Só não sei até que ponto são ouvidos. Mas, pelo menos temos uma chance de darmos nossas opiniões.
Vão lá achei muito interessante o site. E a possibilidade de votação.
Vote na Web: http://votenaweb.com.br/
...
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
Risco de vida ou risco de morte?
20 / 05 / 2007 Genéricas
A maioria das pessoas já escutou a expressão “risco de morte”, que está rondando por aí… Outro dia, desatento, soltei uma dessas enquanto visitava meus pais. Um olhar lateral, uma respirada e meu pai soltou -Filho, não é porque algum grupo de mídia resolveu matar o “risco de vida” que você deve fazer isso também. O pior é que nunca fui adepto da versão alternativa da expressão, mas resolvi pensar sobre o assunto e fui tentar descobrir quem é o inventor do “risco de morte”.
Do criador eu não tenho provas, mas pelo que pude apurar o divulgador da pérola seria um professor de português (sim, um professor de português!) consultor de algumas empresas de comunicação. O mais chocante é a justificativa para o uso de uma em detrimento da outra. Segundo um colega que viu tal programa de tv, a “razão” seria um “erro de lógica”. Aguarde, querido leitor, isso só irá ficar melhor e melhor…
De acordo com o tal “ilustrado”, não se corre “risco de vida”, afinal, há risco em morrer e não em viver. Zeus nos acuda, como um docente solta uma dessas!
Antes de seguirmos em frente, recuperei minha gramática do ginásio (Novíssima Gramática - Domingos Paschoal Cegalla) e lá encontro a seguinte definição em figuras de construção (especificamente, figuras de linguagem):
Elipse. É a omissão de um termo ou oração que facilmente podemos subenteder no contexto. É uma espécie de economia de palavras. São comuns as elipses dos pronomes sujeitos, dos verbos e de palavras de ligação… Pode ocorrer a elipse total ou parcial de uma oração…
Pois bem, “risco de vida” significa “risco de perder a vida”. Não é óbvio?! Porém o mais ridículo dessa história toda é que a expressão escolhida pelo “mestre” para substituir a “ilógica” também é um elipse. Na verdade, são duas elipses! “Risco de morte” vem de “risco de encontrar a morte”. -Ei, e a segunda elipse?- Acontece que “risco de encontrar a morte” vem de “risco de encontrar o anjo da morte”! Atualmente os gramáticos (quase) todos concordam que, em línguas, o uso (costume) é mandante. Se quisesse evitar a elipse deveria utilizar “risco de morreR“.
Um adendo, no cinema o anjo da morte ficou conhecido por ser aquele “sujeito” vestido com capa e capuz pretos e segurando uma foice com enorme cabo. Trata-se, na tradição cristã, de um dos quatro cavaleiros do apocalipse. Há um equivalente na tradição talmúdica, mas não me recordo o nome, se alguém puder enviar agradeço.
-Tá, o que isso tem a ver com esse blog? O tal “professor” (não cito o nome aqui pois não encontrei uma declaração dele fazendo tal afirmação, tenho apenas um relato), como já disse, é consultor da principal rede de comunicação do país. Esse é um risco constante de qualquer tipo de consultoria (esse blog incluso): apontar erros que não existem. Cria-se um problema onde não há nada errado, ou pior, erra-se onde está tudo certo para justificar a “consultoria”.
Resumo da ópera, sempre que um consultor apresentar algo bombástico, muito utilizado mas, segundo o consultor, completamente errado e que ninguém havia percebido, desconfie. E desconfie de novo.
-Ahh, então vou desconfiar desse artigo também!
...
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Estilo gafanhoto
Por Denis Russo Burgierman
Ideias
segunda-feira, 3 de maio de 2010 | 19:01
O capitalismo não é o inimigo.
O inimigo, como eu já falei outras vezes, é uma certa mentalidade, e essa mentalidade é dominante tanto entre os “neoliberais” quanto entre os “comunistas”. “Capitalismo e socialismo são irmãos”, me disse numa entrevista semana passada o Secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge. Irmãos, filhos da mesma herança cultural, com a mesma visão de mundo, que Jorge define assim: “há o econômico e há o social, que precisam ser equilibrados. Os recursos naturais são inesgotáveis e existem unicamente para dispormos deles infinitamente, seja para o econômico, seja para o social”. Esquerda quer que a balança penda pro social, direita puxa pro econômico, mas as duas estão igualmente erradas no essencial: os recursos não são infinitos.
A coisa central que precisa mudar, para a conta fechar, é essa crença que nós temos entranhada de que é preciso crescer sempre. Se a economia brasileira era de 1 trilhão em 2005, precisa ser de 1 trilhão e tanto em 2006, e precisa crescer todo ano para sempre. Veja bem, não me entenda mal. Não estou dizendo que crescer seja ruim. É bom, óbvio, e crescimentos precisam ser celebrados. Mas o financismo da nossa cultura impõe mais que isso: ele quer que crescimento seja a regra geral do mundo. Tudo tem que crescer sempre, todo ano. As empresas estabelecem metas de crescimento, e essas metas tendem a ser mais agressivas a cada ano. Muita empresa se exige crescer 20% de um ano para o outro, até 30%. E aí elas se medem por esse crescimento. Se crescer só 15%, não vai haver celebração: vai haver demissões, tristeza e suicídios eventuais.
Essa agressividade das metas acaba significando que muitos funcionários de grandes empresas privadas acabam se comportando mais ou menos como batedores de carteiras. Eles saem às ruas com os olhos furiosos, inventam esquemas intransparentes de empurrar produtos, disfarçam gato de lebre, lucram vendendo o que deveria ser de todos. Há uma imensa agressividade no nosso jeito de atuar no mundo, e a humanidade fica meio parecida com gafanhotos: uma espécie que se espalha rápido e que, assim que chega aos lugares, seca tudo, come tudo, caga tudo e vai embora para outro lugar.
Mudar essa crença de que o crescimento é eterno é duro. Eu sei bem. Luto contra isso todo dia. Fui criado nessa cultura, vivo sob essa lógica, no fundo tenho dificuldade de escapar dela. Sou um sujeito competitivo. Saí da faculdade, fui trabalhar numa corporação, virei madrugadas, meu colesterol subiu, minhas pálpebras tremiam. Pouco depois dos 30, eu era um executivo bem pago, que fazia algumas dezenas de milhões de reais por ano para o meu chefe, ganhava bônus todo ano e dirigia um carrão, com a gasolina “por conta”. No processo, eu vi como as coisas funcionam. Vi a pressão por transformar em dinheiro qualquer asset que me caísse na mão, fosse ele renovável ou não: credibilidade, qualidade, saúde, recursos naturais. Vi como era difícil resistir a essa cultura, por mais que as pessoas sejam decentes e bem intencionadas (e, na empresa onde eu trabalhava, eu estava cercado de gente decente e bem intencionada).
Ano passado, pedi demissão, porque fui acometido da certeza de que é preciso mudar de lógica. Vou te dizer: meu colesterol não baixou nem minha pálpebra parou de tremer. Continuo vira-e-mexe perdendo o sono com preocupações. Sabe por quê? Porque, embora racionalmente eu saiba que estou fazendo a coisa certa, meu cérebro, moldado pela lógica do crescimento eterno, vive me perguntando “mas será que você não se precipitou, Denis?” Embora eu saiba que dirigir aquele carrão com gasolina “por conta” era insustentável e fazia minha barriga crescer, de tempos em tempos meu cérebro viciado pega no meu pé (geralmente é quando eu estou me espremendo num ônibus). Embora eu saiba que eu não preciso acumular tanto, morro de medo de faltar, e se acontecer isso, e se acontecer aquilo?
Enfim, não são só as empresas e os países que querem crescer todo ano. São as pessoas também. Todo mundo acha que merece ganhar mais este ano que no ano passado. Parece que ninguém percebe que as vidas mais incríveis e marcantes são aquelas que têm altos e baixos.
Foto: e-du (CC)
Por Denis Russo Burgierman
Original em Veja.com:
http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/ideias/estilo-gafanhoto/
Ideias
segunda-feira, 3 de maio de 2010 | 19:01
O capitalismo não é o inimigo.
O inimigo, como eu já falei outras vezes, é uma certa mentalidade, e essa mentalidade é dominante tanto entre os “neoliberais” quanto entre os “comunistas”. “Capitalismo e socialismo são irmãos”, me disse numa entrevista semana passada o Secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge. Irmãos, filhos da mesma herança cultural, com a mesma visão de mundo, que Jorge define assim: “há o econômico e há o social, que precisam ser equilibrados. Os recursos naturais são inesgotáveis e existem unicamente para dispormos deles infinitamente, seja para o econômico, seja para o social”. Esquerda quer que a balança penda pro social, direita puxa pro econômico, mas as duas estão igualmente erradas no essencial: os recursos não são infinitos.
A coisa central que precisa mudar, para a conta fechar, é essa crença que nós temos entranhada de que é preciso crescer sempre. Se a economia brasileira era de 1 trilhão em 2005, precisa ser de 1 trilhão e tanto em 2006, e precisa crescer todo ano para sempre. Veja bem, não me entenda mal. Não estou dizendo que crescer seja ruim. É bom, óbvio, e crescimentos precisam ser celebrados. Mas o financismo da nossa cultura impõe mais que isso: ele quer que crescimento seja a regra geral do mundo. Tudo tem que crescer sempre, todo ano. As empresas estabelecem metas de crescimento, e essas metas tendem a ser mais agressivas a cada ano. Muita empresa se exige crescer 20% de um ano para o outro, até 30%. E aí elas se medem por esse crescimento. Se crescer só 15%, não vai haver celebração: vai haver demissões, tristeza e suicídios eventuais.
Essa agressividade das metas acaba significando que muitos funcionários de grandes empresas privadas acabam se comportando mais ou menos como batedores de carteiras. Eles saem às ruas com os olhos furiosos, inventam esquemas intransparentes de empurrar produtos, disfarçam gato de lebre, lucram vendendo o que deveria ser de todos. Há uma imensa agressividade no nosso jeito de atuar no mundo, e a humanidade fica meio parecida com gafanhotos: uma espécie que se espalha rápido e que, assim que chega aos lugares, seca tudo, come tudo, caga tudo e vai embora para outro lugar.
"O sorriso do gafanhoto", de e-du
Mudar essa crença de que o crescimento é eterno é duro. Eu sei bem. Luto contra isso todo dia. Fui criado nessa cultura, vivo sob essa lógica, no fundo tenho dificuldade de escapar dela. Sou um sujeito competitivo. Saí da faculdade, fui trabalhar numa corporação, virei madrugadas, meu colesterol subiu, minhas pálpebras tremiam. Pouco depois dos 30, eu era um executivo bem pago, que fazia algumas dezenas de milhões de reais por ano para o meu chefe, ganhava bônus todo ano e dirigia um carrão, com a gasolina “por conta”. No processo, eu vi como as coisas funcionam. Vi a pressão por transformar em dinheiro qualquer asset que me caísse na mão, fosse ele renovável ou não: credibilidade, qualidade, saúde, recursos naturais. Vi como era difícil resistir a essa cultura, por mais que as pessoas sejam decentes e bem intencionadas (e, na empresa onde eu trabalhava, eu estava cercado de gente decente e bem intencionada).
Ano passado, pedi demissão, porque fui acometido da certeza de que é preciso mudar de lógica. Vou te dizer: meu colesterol não baixou nem minha pálpebra parou de tremer. Continuo vira-e-mexe perdendo o sono com preocupações. Sabe por quê? Porque, embora racionalmente eu saiba que estou fazendo a coisa certa, meu cérebro, moldado pela lógica do crescimento eterno, vive me perguntando “mas será que você não se precipitou, Denis?” Embora eu saiba que dirigir aquele carrão com gasolina “por conta” era insustentável e fazia minha barriga crescer, de tempos em tempos meu cérebro viciado pega no meu pé (geralmente é quando eu estou me espremendo num ônibus). Embora eu saiba que eu não preciso acumular tanto, morro de medo de faltar, e se acontecer isso, e se acontecer aquilo?
Enfim, não são só as empresas e os países que querem crescer todo ano. São as pessoas também. Todo mundo acha que merece ganhar mais este ano que no ano passado. Parece que ninguém percebe que as vidas mais incríveis e marcantes são aquelas que têm altos e baixos.
Foto: e-du (CC)
Por Denis Russo Burgierman
Original em Veja.com:
http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/ideias/estilo-gafanhoto/
Desobedeça
Por Denis Russo Burgierman
Ideias
segunda-feira, 10 de maio de 2010 | 13:25
– É uma criança tão boa, tão obediente!
O equívoco começa bem cedo na vida. Desde a primeira infância, a criança aprende a acreditar que ser “bom” é sinônimo de ser “obediente”. Mas não é. Aliás, muito longe disso. Quem quer realmente ser bom necessariamente vai ter que desobedecer autoridades em algum momento da vida.
Prova disso é o clássico Experimento de Milgram, conduzido em 1964 nos EUA. A ideia foi do psicólogo Stanley Milgram, que queria estudar a propensão humana a obedecer a autoridade, mesmo quando isso implica em ser cruel com outros seres humanos (Milgram estava interessado em entender como Hitler foi capaz de mobilizar milhões de pessoas comuns no seu projeto genocida).
Foi um experimento engenhoso (e que hoje certamente seria considerado antiético). Começou com a publicação de um anúncio num jornal pedindo voluntários para um estudo sobre memória e aprendizado.
Os voluntários que se candidataram foram recebidos por um cientista de jaleco branco que explicou o experimento. Eles teriam que se sentar em frente a um vidro e operar uma máquina cheia de botões. Do outro lado do vidro, haveria outro voluntário, um senhor afável, que teria que decorar e repetir uma série de palavras. A cada palavra errada, o voluntário teria que apertar um botão, e o senhor do outro lado do vidro levava um choque. A cada erro, o choque ficava 15 volts mais forte. No final, o senhor dava gritos desesperados e dizia que ia morrer porque tinha um problema cardíaco. Os choques eram fortíssimos e o botão continha avisos de que havia risco de vida.
Bom, nada disso era verdade. Não havia choque nenhum. O senhor era um ator que errava por querer. O objetivo do experimento não era medir aprendizado, mas descobrir se as pessoas seguiriam ordens mesmo com um sujeito estrebuchando de desespero. Resultado: a imensa maioria segue ordens.
65% das pessoas administrou o choque até o limite máximo, de 450 volts. Todos os voluntários se sentiram incomodados e quiseram parar o experimento quando os gritos começaram, lá pelos 300 volts. Quando eles faziam isso, o cientista de jaleco reagia com dureza, dizendo que eles precisavam continuar, que não havia perigo e que eles tinham concordado com as regras do experimento (muito embora todos eles tenham sido avisados no começo de que poderiam parar se quisessem).
Uns poucos reagiram à autoridade e disseram que parariam mesmo assim. Mas a grande maioria obedeceu. O interessante é que, nesse ponto, eles deixaram de se incomodar com o outro. Alguns até começaram a demonstrar uma certa raiva sádica ao apertar o botão. A presença da autoridade como que “desligou” a culpa deles, o senso de responsabilidade sumiu. A partir da bronca do cientista, quase todos estavam dispostos a tudo. E, se o senhor afável morresse… Ora, não foi culpa minha, eu estava só cumprindo ordens.
Outro psicólogo famoso, que aliás estudou com Milgram na mesma escola do Bronx, em Nova York, é Philip Zimbardo, ainda ativo na Universidade Stanford (Milgram morreu em 1984). Zimbardo é autor de outro estudo clássico (igualmente questionado pela ética científica de hoje), o Stanford Prision Experiment. Ele recrutou garotos para fazer o papel de guardas e prisioneiros numa prisão fictícia. Em poucos dias, os guardas tinham virado torturadores covardes e os prisioneiros estavam tendo colapsos nervosos.
Zimbardo, comentando o experimento de Milgram, costuma dizer que o que o mundo precisa é de mais heróis. Só que, para ele, “herói” não é necessariamente alguém inalcançavelmente generoso, que entrega a vida a uma causa, como Gandhi ou Martin Luther King. Herói, para ele, é gente comum, que leva sua vida, mas que, quando vê algo errado acontecendo, tem coragem de dizer não.
No experimento de Milgram, algumas pouquíssimas pessoas se recusaram a dar choques, levantaram-se indignadas e saíram gritando que não participariam mais daquilo. Quando isso acontecia, todos os outros voluntários na sala recusavam-se também a continuar. Um único herói, provou-se então, tem o poder de catalisar uma reação positiva enorme.
A questão é que, quando educamos nossas crianças apenas para serem obedientes, a chance de elas agirem com heroísmo quando a oportunidade aparecer é minúscula. Crianças boas são aquelas que, quando chega a hora de escolher entre o certo e o errado, são capazes de desobedecer.
Por Denis Russo Burgierman
Original em Veja.com:
http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/
Ideias
segunda-feira, 10 de maio de 2010 | 13:25
– É uma criança tão boa, tão obediente!
O equívoco começa bem cedo na vida. Desde a primeira infância, a criança aprende a acreditar que ser “bom” é sinônimo de ser “obediente”. Mas não é. Aliás, muito longe disso. Quem quer realmente ser bom necessariamente vai ter que desobedecer autoridades em algum momento da vida.
Prova disso é o clássico Experimento de Milgram, conduzido em 1964 nos EUA. A ideia foi do psicólogo Stanley Milgram, que queria estudar a propensão humana a obedecer a autoridade, mesmo quando isso implica em ser cruel com outros seres humanos (Milgram estava interessado em entender como Hitler foi capaz de mobilizar milhões de pessoas comuns no seu projeto genocida).
Foi um experimento engenhoso (e que hoje certamente seria considerado antiético). Começou com a publicação de um anúncio num jornal pedindo voluntários para um estudo sobre memória e aprendizado.
Os voluntários que se candidataram foram recebidos por um cientista de jaleco branco que explicou o experimento. Eles teriam que se sentar em frente a um vidro e operar uma máquina cheia de botões. Do outro lado do vidro, haveria outro voluntário, um senhor afável, que teria que decorar e repetir uma série de palavras. A cada palavra errada, o voluntário teria que apertar um botão, e o senhor do outro lado do vidro levava um choque. A cada erro, o choque ficava 15 volts mais forte. No final, o senhor dava gritos desesperados e dizia que ia morrer porque tinha um problema cardíaco. Os choques eram fortíssimos e o botão continha avisos de que havia risco de vida.
Bom, nada disso era verdade. Não havia choque nenhum. O senhor era um ator que errava por querer. O objetivo do experimento não era medir aprendizado, mas descobrir se as pessoas seguiriam ordens mesmo com um sujeito estrebuchando de desespero. Resultado: a imensa maioria segue ordens.
65% das pessoas administrou o choque até o limite máximo, de 450 volts. Todos os voluntários se sentiram incomodados e quiseram parar o experimento quando os gritos começaram, lá pelos 300 volts. Quando eles faziam isso, o cientista de jaleco reagia com dureza, dizendo que eles precisavam continuar, que não havia perigo e que eles tinham concordado com as regras do experimento (muito embora todos eles tenham sido avisados no começo de que poderiam parar se quisessem).
Uns poucos reagiram à autoridade e disseram que parariam mesmo assim. Mas a grande maioria obedeceu. O interessante é que, nesse ponto, eles deixaram de se incomodar com o outro. Alguns até começaram a demonstrar uma certa raiva sádica ao apertar o botão. A presença da autoridade como que “desligou” a culpa deles, o senso de responsabilidade sumiu. A partir da bronca do cientista, quase todos estavam dispostos a tudo. E, se o senhor afável morresse… Ora, não foi culpa minha, eu estava só cumprindo ordens.
Outro psicólogo famoso, que aliás estudou com Milgram na mesma escola do Bronx, em Nova York, é Philip Zimbardo, ainda ativo na Universidade Stanford (Milgram morreu em 1984). Zimbardo é autor de outro estudo clássico (igualmente questionado pela ética científica de hoje), o Stanford Prision Experiment. Ele recrutou garotos para fazer o papel de guardas e prisioneiros numa prisão fictícia. Em poucos dias, os guardas tinham virado torturadores covardes e os prisioneiros estavam tendo colapsos nervosos.
Zimbardo, comentando o experimento de Milgram, costuma dizer que o que o mundo precisa é de mais heróis. Só que, para ele, “herói” não é necessariamente alguém inalcançavelmente generoso, que entrega a vida a uma causa, como Gandhi ou Martin Luther King. Herói, para ele, é gente comum, que leva sua vida, mas que, quando vê algo errado acontecendo, tem coragem de dizer não.
No experimento de Milgram, algumas pouquíssimas pessoas se recusaram a dar choques, levantaram-se indignadas e saíram gritando que não participariam mais daquilo. Quando isso acontecia, todos os outros voluntários na sala recusavam-se também a continuar. Um único herói, provou-se então, tem o poder de catalisar uma reação positiva enorme.
A questão é que, quando educamos nossas crianças apenas para serem obedientes, a chance de elas agirem com heroísmo quando a oportunidade aparecer é minúscula. Crianças boas são aquelas que, quando chega a hora de escolher entre o certo e o errado, são capazes de desobedecer.
Por Denis Russo Burgierman
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terça-feira, 8 de junho de 2010
“No Brasil, somos também vigiados pelas nossas famílias, cujo princípio básico é evitar a solidão de seus membros”
Circular: “A maioria dos intelectuais brasileiros que conheço teve que lutar para ler um livro dentro de suas casas, independentemente de nível social. (…) É que, no Brasil, somos também vigiados pelas nossas famílias, cujo princípio básico é evitar a solidão de seus membros. Qualquer tipo de isolamento ou individuação, seja porque a pessoa fala pouco ou porque fica dentro de seu quarto (quando o tem), é tomado como sintoma de que algo não está bem. Criamos nossos rebentos para serem sociáveis e dependentes dos mais velhos e exemplos para os mais novos. Olhamos mais vertical do que horizontalmente. Dessa jaula de carinhos e favores feita por relações perpétuas (pois nem a morte rompe com elas), não há escapatória. Nossas crianças não podem ficar sozinhas. A todo momento um adulto as excita, solicitando um olhar ou um sorriso. É enorme a carga social que despejamos uns nos outros. Disso resulta uma aversão à solidão que, no Brasil, é castigo. Na América, ensina-se como fazer amigos. No Brasil, precisamos do manual de como podemos nos livrar daqueles que, por amor, nos sufocam. É óbvio que uma pessoa assim socializada tenha dificuldades em ler e estudar, pois essas são atividades _como descobriram os monges e profetas_ que demandam um mínimo de isolamento e de autonomia, esses irmãos de um silêncio que é mandamento principal das bibliotecas e de todos os ambientes de leitura.”
Do antropólogo Roberto DaMatta, no artigo “Ficar sozinho no Brasil”. (Via blog do Armando Antenore).
Enviado por Ricardo Lombardi
Blog Desculpe a Poeira:
Jornalistas criam nova igreja. É rápido e barato.
domingo, 29 de novembro de 2009
Postado por Orlando Tambosi às 20:54
Abrir uma empresa, no Brasil, leva muito tempo e custa caro. Em compensação, você pode criar uma nova igreja em dois dias, a um custo mínimo. E tem a vantagem que nenhuma empresa tem: isenção do IR e outros impostos. O articulista Hélio Schwartsman e dois repórteres da Folha criaram a Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio e relatam sua experiência, que surrupio na íntegra:
Bastaram dois dias úteis e R$ 218,42 em despesas de cartório para a reportagem da Folha criar uma igreja. Com mais três dias e R$ 200, a Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio já tinha CNPJ, o que permitiu aos seus três fundadores abrir uma conta bancária e realizar aplicações financeiras livres de IR (Imposto de Renda) e de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Seria um crime perfeito, se a prática não estivesse totalmente dentro da lei. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para a constituição de uma igreja. Tampouco se exige um número mínimo de fiéis.
Basta o registro de sua assembleia de fundação e estatuto social num cartório. Melhor ainda, o Estado está legalmente impedido de negar-lhes fé. Como reza o parágrafo 1º do artigo 44 do Código Civil: "São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos e necessários ao seu funcionamento". A autonomia de cada instituição religiosa é quase total. Desde que seus estatutos não afrontem nenhuma lei do país e sigam uma estrutura jurídica assemelhada à das associações civis, os templos podem tudo.
A Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio, por exemplo, pode sem muito exagero ser descrita como uma monarquia absolutista e hereditária. Nesse quesito, ela segue os passos da Igreja da Inglaterra (anglicana), que tem como "supremo governador" o monarca britânico.
Livrar-se de tributos é a principal vantagem material da abertura de uma igreja. Nos termos do artigo 150, VI, b da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com suas finalidades essenciais.
Isso significa que, além de IR e IOF, igrejas estão dispensadas de IPTU (imóveis urbanos), ITR (imóveis rurais), IPVA (veículos), ISS (serviços), para citar só alguns dos vários "Is" que assombram a vida dos contribuintes brasileiros. A única condição é que todos os bens estejam em nome do templo e que se relacionem a suas finalidades essenciais -as quais são definidas pela própria igreja.
O caso do ICMS é um pouco mais polêmico. A doutrina e a jurisprudência não são uniformes. Em alguns Estados, como São Paulo, o imposto é cobrado, mas em outros, como o Rio de Janeiro e Paraná, por força de legislação estadual, igrejas não recolhem o ICMS nem sobre as contas de água, luz, gás e telefone que pagam.
Certos autores entendem que associações religiosas, por analogia com o disposto para outras associações civis, estão legalmente proibidas de distribuir patrimônio ou renda a seus controladores. Mas nada impede -aliás é quase uma praxe- que seus diretores sejam também sacerdotes, hipótese em que podem perfeitamente receber proventos.
A questão fiscal não é o único benefício da empreitada. Cada culto determina livremente quem são seus ministros religiosos e, uma vez escolhidos, eles gozam de privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (CF, art. 143) e o direito a prisão especial (Código de Processo Penal, art. 295).
Na dúvida, os filhos varões dos sócios-fundadores da Igreja Heliocêntrica foram sagrados minissacerdotes. Neste caso, o modelo inspirador foi o budismo tibetano, cujos Dalai Lamas (a reencarnação do lama anterior) são escolhidos ainda na infância.
Voltando ao Brasil, há até o caso de cultos religiosos que obtiveram licença especial do poder público para consumir ritualisticamente drogas alucinógenas.
Desde os anos 80, integrantes de igrejas como Santo Daime, União do Vegetal, A Barquinha estão autorizados pelo Ministério da Justiça a cultivar, transportar e ingerir os vegetais utilizados na preparação do chá ayahuasca -proibido para quem não é membro de uma dessas igrejas.
Se a Lei Geral das Religiões, já aprovada pela Câmara e aguardando votação no Senado, se materializar, mais vantagens serão incorporadas. Templos de qualquer culto poderão, por exemplo, reivindicar apoio do Estado na preservação de seus bens, que gozarão de proteção especial contra desapropriação e penhora.
O diploma também reforça disposições relativas ao ensino religioso. Em princípio, a Igreja Heliocêntrica poderá exigir igualdade de representação, ou seja, que o Estado contrate professores de heliocentrismo.
Colaboraram os bispos CLAUDIO ANGELO, editor de Ciência, e RAFAEL GARCIA, da Reportagem Local
De quem é a rua?
Por: Denis Russo Burgierman
Cidade
segunda-feira, 24 de maio de 2010 | 16:14
Passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro. Abre pro pedestre, corre, 2, 1, 0. Passa carro, passa carro…
Saiu hoje na Folha que o pedestre tem em média 15 segundos para atravessar uma avenida. Está muito claro que as ruas são dos carros. Pedestres podem usá-las comedidamente, mas apenas se prometerem não atrapalhar.
15 segundos para atravessar significa que, ainda que você esteja muito atento e coloque o pé na rua no mesmo segundo em que o sinal abrir, terá que andar a 1,2 m/s para chegar do outro lado antes que o sinal abra – 50% mais rápido que a dita “velocidade de caminhada” (que é 0,8 m/s). Ou seja, há que correr. O pessoal da Companhia de Engenharia de Tráfego diz que é “mais que suficiente”. Verdade. Dá tempo. Desde que o sujeito esteja atento. Desde que ele se mova rápido. Desde que o motorista respeite o sinal. O que nem sempre acontece.
Em 2009, o trânsito de São Paulo matou 1.382 pessoas. Só 222 eram motoristas. 671 eram pedestres. A maioria deles morreu em cima da faixa de pedestres. 30% das vítimas eram idosos, cuja velocidade é menor. Morre mais gente no trânsito do que por homicídio na cidade. Homicídios tendem a se concentrar na população de jovens adultos homens. Já as mortes no trânsito costumam privilegiar os mais fracos: idosos e crianças entre eles.
A gente está cansado de ouvir essas estatísticas. Cansado de ouvir comparações estapafúrdias. Que o trânsito de São Paulo mata mais em 4 meses do que toda a Guerra do Golfo matou nas forças ocidentais. Que mata mais do que o conflito da Palestina. Mata mais do que malária e dengue somados matam no Brasil inteiro.
Levando-se tudo isso em conta, não é curioso que a gente continue achando que o problema do trânsito é apenas sua lentidão? Os jornais diários e as revistas (incluindo a Vejinha) sempre fazem matérias sobre os buracos no asfalto, mas raramente comentam os buracos nas calçadas. Os projetos da prefeitura visam a aumentar o fluxo de carros. Só.
A prefeitura de São Paulo acabou de anunciar que, a partir de 2012, vai acabar com as vagas de estacionamento no meio fio. Motoristas vão ter que parar em estacionamentos fechados. Para quê? Para aumentar o fluxo de carros.
Ok, é óbvio que os carros precisam andar. Mas será que o foco não deveria ser diminuir a quantidade de carros? E se o prefeitura pegasse um quinto do espaço liberado no meio fio e criasse ciclovias? Isso faria as ruas infinitamente mais seguras para ciclistas. Certamente haveria uma explosão das bicicletas na cidade e o número de carros diminuiria (hoje, com o caos atual, já há mais gente se deslocando de bicicleta do que de táxi).
Tenho ouvido sugestões ainda mais criativas. Por exemplo: e se a prefeitura desse descontos no preço do aluguel de quem morar perto do trabalho? Assistencialismo!, já ouço berrarem. Na verdade não: é um jeito de economizar dinheiro público. Investir em diminuir os deslocamentos na cidade sai mais barato do que construir metrô.
E, ainda que não saísse… Por que é que o trânsito, que mata mais brasileiros do que a aids, a diarreia ou o câncer de pulmão, não vira prioridade para a saúde pública? Como é que o carro, que mata mais que o revólver, não tem seu uso controlado?
Divulgado pela Veja.com:
sábado, 5 de junho de 2010
''Muitos pedem só que a Igreja seja ela mesma''
7/4/2010
Entrevista com o cardeal Carlo Maria Martini, pela IHU.
"Primeiro aprendemos, depois ensinamos, depois nos retiramos e aprendemos a calar. E nessa quarta fase, o homem aprende a mendigar". O provérbio indiano que ele quis citar em um de seus últimos livros representa, para o cardeal Carlo Maria Martini (na foto, ao lado de Bento XVI) quase que uma fotografia da sua longa vida.
Ele espera o tempo de Páscoa na quieta obra do Aloisianum, a gloriosa casa dos jesuítas em Gallarate, na Itália, enquanto também naquele espaço apartado chegam os ecos de tempestades midiáticas que novamente se abatem sobre a Igreja. Ele diz que sente muita falta de Jerusalém. Com palavras incomuns para a Cidade Santa, ele explica que, para ele, aquele lugar tem quase um efeito tônico, porque "é riquíssimo de lugares e de motivos que levam à ação. Graças a Deus", acrescenta, "conservei também aqui a vontade de sair de mim mesmo e de me jogar nas coisas que Jerusalém me transmitiu".
A reportagem é de Gianni Valente, publicada na revista 30Giorni, 15-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
O que o senhor pede agora nas suas orações de mendicante?
Agora, a minha mendicância é também física, o que me obriga a pedir a ajuda de alguém, talvez de noite. Essa é a primeira pobreza por meio da qual o Senhor me fez passar, mas não é que me custe muito, porque assim dou oportunidade para que os outros façam atos de caridade. Depois, a minha oração agora é pela Igreja de Milão, é uma oração de intercessão por todas as realidades e as pessoas da diocese, que eu recomendo uma a uma à graça de Deus. Pela Igreja do mundo – mas talvez esse objetivo seja muito grande – peço que aumente a fé e a esperança, e que estas se expressem na caridade. São as virtudes às quais Bento XVI também dedicou as suas encíclicas.
O senhor falou da sua oração de intercessão. Em um recente livro seu, "Qualcosa di così personale" [Algo de muito pessoal], o senhor reuniu algumas de suas meditações sobre os muitos aspectos da oração.
Reza-se de muitos modos. Há a oração de súplica, que pede milagres e curas e prodígios, como ver almas que se odiavam chegarem a se perdoar. Há a oração de louvor, ou a oração de quem está angustiado, sofre, é frágil; de quem tem necessidade de perdão, ou do pobre que tem necessidade do pão. Mas o que distingue a oração cristã da oração, mesmo que altíssima, das outras religiões é que a oração cristã é dom direto de Deus, que o Espírito nos manda. Nós podemos dizer: "Senhor, eu não sou capaz, pronuncia tu em mim aquela oração, coloque-a no meu coração". E o ápice da oração é a oração de confiança, a entrega das nossas vidas nas suas mãos.
Naquele livro, há algumas páginas dedicadas à oração do velho Simeão. E o senhor se detém na imagem do velho que abraça o menino. E escreve: "Simeão representa cada um de nós diante da novidade de Deus", que "se apresenta como um menino". O senhor, justamente para as crianças, escreveu o seu último livro, "Una parola per te. Pagine bibliche narrate ai più piccoli" [Uma palavra para ti. Páginas bíblicas narradas aos mais pequenos], com reflexões sobre algumas páginas bíblicas narradas para as crianças.
"Da boca dos pequenos e das crianças de peito, Senhor, tirastes o vosso louvor": é a frase do salmo citada por Jesus, quando os sumos sacerdotes e os anciãos o criticam porque consideram inoportuno o grito de louvor dirigido a ele pelas crianças. Hoje, muitas vezes, as crianças me parecem abandonadas. As notícias destes dias nos mostram como estão indefesas diante do mal que pode ser feito a elas. Mas nelas me toca aquela natural abertura confiante aos próprios pais e à vida, que é essencial também na fé.
Às vezes, em vez de favorecer a se comover por essa abertura, buscam-se técnicas e estratagemas que deveriam aproximar os jovens da fé. O que o senhor espera para eles?
A fé se transmite às pessoas a partir do ambiente que as circunda, mas depois pode entrar concretamente em cada um de nós por meio de quatro vias: a cabeça, o coração, as mãos e os pés. Ou seja, a formação humana e intelectual, a oração, ou o trabalho com as mãos para ajudar os outros. De acordo com os tipos, uma ou outra coisa funcionam como via preferencial.
E os pés, o que têm a ver?
Os pés são usados pelos escoteiros, para fazer quilômetros nas suas caminhadas.
Porém, em um outro recente livro seu, é abordada a objeção de um menino que diz: "Não sei o que fazer com a fé. Não tenho nada contra, mas o que a Igreja deveria me dar? [...] Estou bem, do que mais eu preciso?".
Muitos jovens têm o inferno no coração, não devemos negar isso. Porém, vejo que justamente para os jovens que não sabem nada da Igreja, muitas vezes é mais fácil começar pelas mãos. Jogam-se em obras de caridade quando veem outros que fazem as coisas com a paz e a serenidade no coração.
Mas esse sentimento de indiferença, tão diverso das contestações e das críticas das gerações anteriores, pode verdadeiramente ser vencido ao se propor a via de uma vida comprometida, exigente, difícil?
Não se pode exigir nenhum sacrifício de ninguém se antes não saboreou como o ponto de chegada é fascinante. Mas o que pode impressionar os outros é a caridade em ação. E nela o Espírito é a primeira realidade. São Tomás diz que a lei do Novo Testamento é o Espírito Santo, as outras leis são secundárias. São Paulo destaca que a própria observância ética não é plenamente realizável como fruto do homem e do seu cansaço. Muitas vezes nos esquecemos disso, também na Igreja, e então tentamos dar mostras de força e de rigor a nós mesmos. Mas a caridade principalmente só é possível se o Espírito Santo está presente. É a graça do Espírito que torna fácil o que para os homens parece difícil ou até prodigioso.
Diz-se que a Igreja está sob ataque. Muitos falam de cristianofobia. Também entre nós há quem fale de Itália anticristã. De onde surge tudo isso? Da hostilidade do mundo descristianizado?
A hostilidade, de certo modo, pode ser útil. Faz com que se ressalte o desarmamento da Igreja, o seu ser sempre confiada ao Senhor. Mas a Igreja desfruta também a estima e a cordialidade de muitos, que pedem só que a Igreja seja Evangelho, isto é, que seja ela mesma.
O Evangelho basta? Justamente o senhor é muitas vezes citado como o defensor de uma Igreja sem dogmas e estruturas. Uma Igreja totalmente humilde e misericordiosa, sem preceitos.
Se pensarmos nas tantas propostas religiosas que existem no mundo, o que nos diferencia dos outros é Jesus e o seu caminho, e não o pertencimento a uma organização com regras e preceitos. Mas na fé em Jesus não tem sentido contrapor Evangelho e dogmas, misericórdia e mandamentos: isso também vale para isso que eu já disse sobre a prioridade do Espírito Santo. Tudo se compagina em unidade, na realidade da Igreja, que tem um aspecto interior e também um aspecto exterior e, portanto, compreende também estruturas, regras, instrumentos de organização. O importante é que essas realidades também existam por causa daquilo que sejam possíveis expressões de vida interior. E depois também é preciso distinguir as coisas importantes e as que não o são. Acredito que a Igreja já fez uma obra de purificação de muitas coisas exterior que não serviam. E, no entanto, quando ainda leio nos jornais que eu seria o "chefe dos progressistas", quase rio disso tudo.
Para alguns, a resposta adequada a essa situação de hostilidade é aumentar o protagonismo público da Igreja.
A Igreja não pode ter medo de aparecer com cordialidade com relação aos outros na vida pública. Mas é fato que o seu verdadeiro tesouro é o Evangelho lido em nós pelo Espírito Santo. Um tesouro de oração e de humildade. E, de fato, o Evangelho é testemunhado no mundo como Jesus indicou no sermão da montanha, que eu já citei. Não se tratam de propostas "confessionais". Têm também uma conotação laica. Falam a todo homem. Porque fazem entrever um modo desejável de ser homens, que todos deveriam ter presente.
Estas são semanas de tempestade por causa do escândalo da pedofilia. Como o senhor avalia essa situação? Qual exigência surge para a Igreja nestas circunstâncias?
Tudo isso certamente pode ajudar a humildade em todos. Mas valem também as palavras de Jesus: houve ações graves, e em quem escandalizou os pequenos seria melhor que fosse colocada uma pedra de moinho no pescoço e fosse jogado no mar. Isso não exclui que seja registrada também uma grande hipocrisia. Há uma total liberdade sexual, a publicidade utiliza motivos sexuais também para as crianças.
Como defender o Papa das tentativas de chamá-lo em causa nesses episódios?
O Papa não tem necessidade de ser defendido, porque está clara a todos a sua irrepreensibilidade, o seu senso de dever e a sua vontade de fazer o bem. As acusações feitas contra ele nestes dias são ignóbeis e falsas. Será bonito constatar a solidariedade de todos os homens de boa vontade ao estar com ele e ao defendê-lo na sua difícil tarefa.
Na carta aos católicos irlandeses, Bento XVI pediu de todos o jejum, a oração, a leitura da Sagrada Escritura e o sacramento da confissão "para obter a graça da cura e da renovação para a Igreja na Irlanda".
Essas coisas valem para as comunidades em que ocorreram esses casos, assim como valem para toda a Igreja. Mas para os protagonistas desses casos, em que há uma perversão e uma compulsão interna, é preciso também a intervenção dos psicoterapeutas. Trata-se de entender o porquê dessas compulsões e como é possível dominá-las, e os outros meios não entram nesse aspecto específico
Muitas vezes, fazem com que o senhor se pareça a um crítico feroz das insuficiências e dos limites da Igreja. O senhor se vê nesse tipo de descrições?
A Igreja, considerada na sua globalidade, está cheia de santidade e de força interior. A imprensa persegue os episódios particulares, mas em todo o mundo existe muitas pessoas leais, boas, devotas, que agem sem barulho. E eu sou muito grato a Deus, justamente por também poder viver este tempo. Nunca desejaria viver em momentos como o da Reforma Protestante, ou do Cisma do Oriente, ou no tempo do Cisma do Ocidente, quando haviam dois papas, um em Roma e outro em Avignon. Agora, a Igreja dá uma bela mostra de si. Há limites e falhas inevitáveis, e elas também fazem parte do projeto misterioso da vontade de Deus.
Então, não é verdade que o seu sentimento dominante é uma espécie de amargura, centrada na denúncia de fraquezas e de carreirismos.
Eu sempre agradeço a Deus pela forma como acompanhou a minha vida, por tantas pessoas que colocou ao meu lado ao longo do caminho. Sempre digo que Ele também me viciou. Toda a vida me mostrou que Deus é bom e prepara o caminho a cada um de nós. Tive muitíssimo, também dei aquilo que pude. E estou verdadeiramente contente, diante dEle.
Entrevista com o cardeal Carlo Maria Martini, pela IHU.
"Primeiro aprendemos, depois ensinamos, depois nos retiramos e aprendemos a calar. E nessa quarta fase, o homem aprende a mendigar". O provérbio indiano que ele quis citar em um de seus últimos livros representa, para o cardeal Carlo Maria Martini (na foto, ao lado de Bento XVI) quase que uma fotografia da sua longa vida.
Ele espera o tempo de Páscoa na quieta obra do Aloisianum, a gloriosa casa dos jesuítas em Gallarate, na Itália, enquanto também naquele espaço apartado chegam os ecos de tempestades midiáticas que novamente se abatem sobre a Igreja. Ele diz que sente muita falta de Jerusalém. Com palavras incomuns para a Cidade Santa, ele explica que, para ele, aquele lugar tem quase um efeito tônico, porque "é riquíssimo de lugares e de motivos que levam à ação. Graças a Deus", acrescenta, "conservei também aqui a vontade de sair de mim mesmo e de me jogar nas coisas que Jerusalém me transmitiu".
A reportagem é de Gianni Valente, publicada na revista 30Giorni, 15-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
O que o senhor pede agora nas suas orações de mendicante?
Agora, a minha mendicância é também física, o que me obriga a pedir a ajuda de alguém, talvez de noite. Essa é a primeira pobreza por meio da qual o Senhor me fez passar, mas não é que me custe muito, porque assim dou oportunidade para que os outros façam atos de caridade. Depois, a minha oração agora é pela Igreja de Milão, é uma oração de intercessão por todas as realidades e as pessoas da diocese, que eu recomendo uma a uma à graça de Deus. Pela Igreja do mundo – mas talvez esse objetivo seja muito grande – peço que aumente a fé e a esperança, e que estas se expressem na caridade. São as virtudes às quais Bento XVI também dedicou as suas encíclicas.
O senhor falou da sua oração de intercessão. Em um recente livro seu, "Qualcosa di così personale" [Algo de muito pessoal], o senhor reuniu algumas de suas meditações sobre os muitos aspectos da oração.
Reza-se de muitos modos. Há a oração de súplica, que pede milagres e curas e prodígios, como ver almas que se odiavam chegarem a se perdoar. Há a oração de louvor, ou a oração de quem está angustiado, sofre, é frágil; de quem tem necessidade de perdão, ou do pobre que tem necessidade do pão. Mas o que distingue a oração cristã da oração, mesmo que altíssima, das outras religiões é que a oração cristã é dom direto de Deus, que o Espírito nos manda. Nós podemos dizer: "Senhor, eu não sou capaz, pronuncia tu em mim aquela oração, coloque-a no meu coração". E o ápice da oração é a oração de confiança, a entrega das nossas vidas nas suas mãos.
Naquele livro, há algumas páginas dedicadas à oração do velho Simeão. E o senhor se detém na imagem do velho que abraça o menino. E escreve: "Simeão representa cada um de nós diante da novidade de Deus", que "se apresenta como um menino". O senhor, justamente para as crianças, escreveu o seu último livro, "Una parola per te. Pagine bibliche narrate ai più piccoli" [Uma palavra para ti. Páginas bíblicas narradas aos mais pequenos], com reflexões sobre algumas páginas bíblicas narradas para as crianças.
"Da boca dos pequenos e das crianças de peito, Senhor, tirastes o vosso louvor": é a frase do salmo citada por Jesus, quando os sumos sacerdotes e os anciãos o criticam porque consideram inoportuno o grito de louvor dirigido a ele pelas crianças. Hoje, muitas vezes, as crianças me parecem abandonadas. As notícias destes dias nos mostram como estão indefesas diante do mal que pode ser feito a elas. Mas nelas me toca aquela natural abertura confiante aos próprios pais e à vida, que é essencial também na fé.
Às vezes, em vez de favorecer a se comover por essa abertura, buscam-se técnicas e estratagemas que deveriam aproximar os jovens da fé. O que o senhor espera para eles?
A fé se transmite às pessoas a partir do ambiente que as circunda, mas depois pode entrar concretamente em cada um de nós por meio de quatro vias: a cabeça, o coração, as mãos e os pés. Ou seja, a formação humana e intelectual, a oração, ou o trabalho com as mãos para ajudar os outros. De acordo com os tipos, uma ou outra coisa funcionam como via preferencial.
E os pés, o que têm a ver?
Os pés são usados pelos escoteiros, para fazer quilômetros nas suas caminhadas.
Porém, em um outro recente livro seu, é abordada a objeção de um menino que diz: "Não sei o que fazer com a fé. Não tenho nada contra, mas o que a Igreja deveria me dar? [...] Estou bem, do que mais eu preciso?".
Muitos jovens têm o inferno no coração, não devemos negar isso. Porém, vejo que justamente para os jovens que não sabem nada da Igreja, muitas vezes é mais fácil começar pelas mãos. Jogam-se em obras de caridade quando veem outros que fazem as coisas com a paz e a serenidade no coração.
Mas esse sentimento de indiferença, tão diverso das contestações e das críticas das gerações anteriores, pode verdadeiramente ser vencido ao se propor a via de uma vida comprometida, exigente, difícil?
Não se pode exigir nenhum sacrifício de ninguém se antes não saboreou como o ponto de chegada é fascinante. Mas o que pode impressionar os outros é a caridade em ação. E nela o Espírito é a primeira realidade. São Tomás diz que a lei do Novo Testamento é o Espírito Santo, as outras leis são secundárias. São Paulo destaca que a própria observância ética não é plenamente realizável como fruto do homem e do seu cansaço. Muitas vezes nos esquecemos disso, também na Igreja, e então tentamos dar mostras de força e de rigor a nós mesmos. Mas a caridade principalmente só é possível se o Espírito Santo está presente. É a graça do Espírito que torna fácil o que para os homens parece difícil ou até prodigioso.
Diz-se que a Igreja está sob ataque. Muitos falam de cristianofobia. Também entre nós há quem fale de Itália anticristã. De onde surge tudo isso? Da hostilidade do mundo descristianizado?
A hostilidade, de certo modo, pode ser útil. Faz com que se ressalte o desarmamento da Igreja, o seu ser sempre confiada ao Senhor. Mas a Igreja desfruta também a estima e a cordialidade de muitos, que pedem só que a Igreja seja Evangelho, isto é, que seja ela mesma.
O Evangelho basta? Justamente o senhor é muitas vezes citado como o defensor de uma Igreja sem dogmas e estruturas. Uma Igreja totalmente humilde e misericordiosa, sem preceitos.
Se pensarmos nas tantas propostas religiosas que existem no mundo, o que nos diferencia dos outros é Jesus e o seu caminho, e não o pertencimento a uma organização com regras e preceitos. Mas na fé em Jesus não tem sentido contrapor Evangelho e dogmas, misericórdia e mandamentos: isso também vale para isso que eu já disse sobre a prioridade do Espírito Santo. Tudo se compagina em unidade, na realidade da Igreja, que tem um aspecto interior e também um aspecto exterior e, portanto, compreende também estruturas, regras, instrumentos de organização. O importante é que essas realidades também existam por causa daquilo que sejam possíveis expressões de vida interior. E depois também é preciso distinguir as coisas importantes e as que não o são. Acredito que a Igreja já fez uma obra de purificação de muitas coisas exterior que não serviam. E, no entanto, quando ainda leio nos jornais que eu seria o "chefe dos progressistas", quase rio disso tudo.
Para alguns, a resposta adequada a essa situação de hostilidade é aumentar o protagonismo público da Igreja.
A Igreja não pode ter medo de aparecer com cordialidade com relação aos outros na vida pública. Mas é fato que o seu verdadeiro tesouro é o Evangelho lido em nós pelo Espírito Santo. Um tesouro de oração e de humildade. E, de fato, o Evangelho é testemunhado no mundo como Jesus indicou no sermão da montanha, que eu já citei. Não se tratam de propostas "confessionais". Têm também uma conotação laica. Falam a todo homem. Porque fazem entrever um modo desejável de ser homens, que todos deveriam ter presente.
Estas são semanas de tempestade por causa do escândalo da pedofilia. Como o senhor avalia essa situação? Qual exigência surge para a Igreja nestas circunstâncias?
Tudo isso certamente pode ajudar a humildade em todos. Mas valem também as palavras de Jesus: houve ações graves, e em quem escandalizou os pequenos seria melhor que fosse colocada uma pedra de moinho no pescoço e fosse jogado no mar. Isso não exclui que seja registrada também uma grande hipocrisia. Há uma total liberdade sexual, a publicidade utiliza motivos sexuais também para as crianças.
Como defender o Papa das tentativas de chamá-lo em causa nesses episódios?
O Papa não tem necessidade de ser defendido, porque está clara a todos a sua irrepreensibilidade, o seu senso de dever e a sua vontade de fazer o bem. As acusações feitas contra ele nestes dias são ignóbeis e falsas. Será bonito constatar a solidariedade de todos os homens de boa vontade ao estar com ele e ao defendê-lo na sua difícil tarefa.
Na carta aos católicos irlandeses, Bento XVI pediu de todos o jejum, a oração, a leitura da Sagrada Escritura e o sacramento da confissão "para obter a graça da cura e da renovação para a Igreja na Irlanda".
Essas coisas valem para as comunidades em que ocorreram esses casos, assim como valem para toda a Igreja. Mas para os protagonistas desses casos, em que há uma perversão e uma compulsão interna, é preciso também a intervenção dos psicoterapeutas. Trata-se de entender o porquê dessas compulsões e como é possível dominá-las, e os outros meios não entram nesse aspecto específico
Muitas vezes, fazem com que o senhor se pareça a um crítico feroz das insuficiências e dos limites da Igreja. O senhor se vê nesse tipo de descrições?
A Igreja, considerada na sua globalidade, está cheia de santidade e de força interior. A imprensa persegue os episódios particulares, mas em todo o mundo existe muitas pessoas leais, boas, devotas, que agem sem barulho. E eu sou muito grato a Deus, justamente por também poder viver este tempo. Nunca desejaria viver em momentos como o da Reforma Protestante, ou do Cisma do Oriente, ou no tempo do Cisma do Ocidente, quando haviam dois papas, um em Roma e outro em Avignon. Agora, a Igreja dá uma bela mostra de si. Há limites e falhas inevitáveis, e elas também fazem parte do projeto misterioso da vontade de Deus.
Então, não é verdade que o seu sentimento dominante é uma espécie de amargura, centrada na denúncia de fraquezas e de carreirismos.
Eu sempre agradeço a Deus pela forma como acompanhou a minha vida, por tantas pessoas que colocou ao meu lado ao longo do caminho. Sempre digo que Ele também me viciou. Toda a vida me mostrou que Deus é bom e prepara o caminho a cada um de nós. Tive muitíssimo, também dei aquilo que pude. E estou verdadeiramente contente, diante dEle.
IHU On-Line:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31201
''O mundo da mulher é um antes da pílula e outro, depois da pílula''
Entrevista especial com Rose Marie Muraro, pela IHU - 5/6/2010
Na opinião da escritora Rose Marie Muraro, “O homem tem muito medo da mulher, ele está muito deprimido e dizendo ‘vocês ganharam a batalha’”. A constatação é da escritora Rose Marie Muraro, na entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line. Na entrevista, ela reflete sobre os impactos provocados pela invenção da pílula nesses últimos 50 anos e identifica que, no aspecto individual, o maior ganho das mulheres foi a construção da sua identidade. E, no aspecto social, “estamos transformando a noção de política e economia”. Ela explica: “os homens têm a relação opressor/oprimido dentro de si. A competitividade é uma relação de opressor e oprimido. (...) O mundo é hierarquizado quando é dominado pelo homem. E o mundo se estabelece em rede quando a mulher entra em cena. Então, os homens não estão acostumados. Eles estão acostumados a mandar, a fazer guerra, e já que encontram uma outra figura que faz frente a eles e diz ‘não’, eles se apavoram, porque nunca ouviram esse não; é a primeira vez na história”.
Formada em Física e Economia, Rose Marie Muraro publicou diversos livros, entre eles, sua biografia Memórias de Uma Mulher Impossível (Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1999). Nos anos 1970, foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual a influência da pílula anticoncepcional e da pílula do dia seguinte para a autonomia das mulheres nos últimos 50 anos?
Rose Marie Muraro – A pílula fez parte da revolução das mentalidades e permitiu às mulheres controlar a sua fertilidade, entrando, assim, para o mercado de trabalho. E, no momento em que elas entraram para o mercado de trabalho, viveram condições muito desvantajosas, ganhando metade do que ganhavam os homens. Mas foram, pouco a pouco, progredindo, até agora, no século XXI, chegar à presidência da república. Temos, inclusive, duas candidatas ao cargo aqui no Brasil. Isso se deve, primitivamente, ao uso da pílula anticoncepcional e à pílula do dia seguinte, senão elas estariam escravas da sua fertilidade. Por isso é que a mulher ficou oprimida durante tantos milênios. A pílula foi a maior descoberta que se fez para a mulher em todos os tempos.
IHU On-Line - Qual o significado social e cultural de a mulher desligar a sexualidade da maternidade?
Rose Marie Muraro – Foi muito mais importante do que você imagina. Foi dar uma visão de gênero ao desenvolvimento que era apenas masculino. Foi ter uma visão de mundo em que a mulher passou a ser sujeito da história e a ter uma identidade. Por exemplo, Deus é do gênero masculino. Então, o homem pode se identificar com Deus. Antigamente, na pré-história, não era Deus o ser incriado. Era uma mulher, da qual surgia o mundo inteiro. Então as mulheres tinham uma identidade. Elas vão perdendo essa identidade no momento em que vai se descobrindo a figura masculina de Deus, que é a dominação do homem sobre a mulher. Lacan dizia “a palavra é do homem e o silêncio é da mulher”. Mas, hoje, está se criando uma palavra feminina, uma visão de estado, de economia, de ciência, de todo o comportamento, principalmente da psicologia, que descobre a noção de gênero. É algo muito profundo o que está acontecendo no mundo agora, principalmente no século XXI.
IHU On-Line - Qual é a importância para a mulher de ter o controle sobre o próprio corpo?
Rose Marie Muraro – Eu nunca usei pílula, porque era católica na época em que casei, e tive cinco filhos. Era muito difícil para mim sair da casa, deixar as crianças com a empregada, porque eu tinha que trabalhar, meu dinheiro era essencial em casa. Tive que construir uma carreira e, por sorte, nasci para ser escritora. Tenho 79 anos e posso dizer que nasci para isso. Eu e as outras mulheres que fizemos esse trabalho, ajudamos muitas mulheres a encontrarem sua identidade no Brasil. A primeira fase da identidade de uma pessoa não escrava é controlar o próprio corpo. Pois o corpo do escravo pertencia ao dono, assim como o corpo da mulher pertencia ao homem. Então, a mulher era uma escrava do homem. Hoje a diferença é brutal. O mundo da mulher é o mundo de antes da pílula e depois da pílula. E isto está mudando a visão estrutural de mundo de homens e mulheres. A identidade da mulher leva à vida; a identidade do homem leva à guerra e à morte. A mulher produz seres humanos, e os homens matam seres humanos. Tanto que a mulher não participa das guerras. Eu espero que isso dê uma noção de um mundo completamente diferente. A única coisa que eu acho que as mulheres fazem de grave e terrível é o consumo. As mulheres se vingam da sua escravidão no consumo, e é preciso acabar com isso, porque o que está terminando com o mundo é o consumo. Daí se pode dizer que a mulher contribui muito para acabar com a natureza. E a mulher é uma extensão da natureza.
IHU On-Line - O que mudou em relação ao conceito de sujeito para a mulher a partir da invenção da pílula anticoncepcional?
Rose Marie Muraro – Ao invés de conceito, prefiro falar na vivência de sujeito, que é muito mais profunda. A vivência de não-sujeito e de sujeito é algo que eu sei o que é. Quando eu liguei as trompas, passei a ser sujeito de mim mesma. Enquanto eu não tinha isso, era sujeita da minha reprodução. Não havia camisinha, os métodos anticoncepcionais eram muito primitivos. Só tomamos o caráter de pessoa plena quando passamos a controlar a maternidade.
IHU On-Line - O que caracteriza a revolução provocada pela pílula anticoncepcional?
Rose Marie Muraro – Foi uma revolução muito mais profunda do que parece. Para a mulher, individualmente, significou construir sua identidade. Quem descobriu a natureza da deusa primitiva foi uma mulher, a Marija Gimbutas (1). A partir da sua identidade, a mulher construiu a deusa terra, que foi adorada como deusa porque dela saía alimento e vida. Então ela era essencialmente feminina. A mulher era o gênero hegemônico. Não havia guerras, tudo era de todos. Isso foi na época pré-histórica. Depois que o homo sapiens aparece, é que temos uma visão completamente masculina e truculenta do mundo, uma visão de competição. A cooperação estatisticamente está na mão da mulher e a competição estatisticamente está na mão do homem. Mas a civilização consumista está na mão da mulher e do homem. Essa é a grande amargura que tenho sobre a mulher: o fato de ela ser consumista. A mulher, quando pode, entra na ilusão da tecnologia, e já estamos estressando a Terra. Será que a mulher não tem culpa pela destruição da espécie? A estrutura do consumo é feita para a sexualidade, para a mulher conquistar o homem, para ela pegar a sua insatisfação e satisfazer com coisas que dão um buraco mais profundo na alma.
IHU On-Line - O que mudou nesses 50 anos de uso da pílula na postura masculina diante das mulheres? O que muda nas relações de gênero?
Rose Marie Muraro – É um medo louco. O homem tem muito medo da mulher, ele está muito deprimido e dizendo “vocês ganharam a batalha”. Vários europeus já me disseram isso. No mundo desenvolvido, isso é muito mais forte do que no mundo ainda patriarcal e familiar, como no Brasil. Na parte individual, foi o ganho da identidade, e na parte social, estamos transformando a noção de política e economia. Os homens têm a relação opressor/oprimido dentro de si. A competitividade é uma relação de opressor e oprimido. Tanto que os homens, como os americanos dizem, “marry down”, casam-se com uma mulher inferior para dominá-la, e as mulheres “marry up”, ao contrário, casam com alguém que possa livrá-las da escravidão. O mundo é hierarquizado quando é dominado pelo homem. E o mundo se estabelece em rede quando a mulher entra em cena. Então, os homens não estão acostumados. Eles estão acostumados a mandar, a fazer guerra, e já que encontram uma outra figura que faz frente a eles e diz “não”, eles se apavoram, porque nunca ouviram esse não; é a primeira vez na história.
IHU On-Line - Que outras libertações a pílula anticoncepcional trouxe para as mulheres?
Rose Marie Muraro – Como eu sou física, vejo a ciência do ponto de vista do gênero. Tenho um livro chamado Avanços tecnológicos e o futuro da humanidade, pela Editora Vozes. E o subtítulo é “querendo ser Deus”. Os homens agora estão criando vida artificial. E essa vida artificial é assassina, porque está substituindo o ser humano pelo ser tecnológico. Existem dois canalhas no mundo: um se chama Craig Venter (2), porque fez a vida sintética. E o outro se chama Raymond Kurzweil (3), que já tem uma universidade nos Estados Unidos, dos transumanistas, para fazer a junção da máquina com o ser humano. Isso nunca poderia ser uma invenção feminina. A invenção da ciência que vai direto a poucos, e não à comunidade, que escraviza grandes porções da humanidade, veio do homem.
IHU On-Line - Qual a contribuição da pílula no sentido de a sexualidade ser pensada como uma dimensão fundamental do ser humano?
Rose Marie Muraro - A sexualidade era considerada algo inferior e sujo, algo que principalmente as mulheres não deviam viver, só as prostitutas. Existiam duas ordens de mulheres: as privadas e as públicas. Hoje esse duplo padrão não existe mais. A mulher, desde criança, pode usar sua sexualidade. As meninas estão passando batom e usando colares, sapatinho de salto alto. Acho isso um escândalo, porque a infância é a infância. Ela é uma ordem simbólica, em que se vive na fantasia. E as meninas vivem na fantasia de serem mulheres. Quem sabe (isso é para o futuro), a infância e a idade adulta não estão sendo rejuntadas e reintegradas, como foram até a Idade Média. Vamos ver como os séculos se comportam.
Notas:
1.- Marija Gimbutas (1921-1994): arqueóloga conhecida por suas pesquisas sobre as culturas do Neolítico e da Idade do Bronze da Europa Antiga (um termo que ela cunhou). (Nota da IHU On-Line).
2.- John Craig Venter (1946): biólogo e empresário americano, famoso por seus trabalhos pioneiros no sequenciamento do genoma humano e, mais recentemente, por seu papel na criação de uma forma de vida artificial. Venter fundou a empresa Celera Genomics, The Institute for Genomic Research e o J. Craig Venter Institute. Trabalha atualmente neste último, onde desenvolve pesquisas acerca da criação de organismos biologicamente sintéticos, e publicação de descobertas genéticas no campo da oceanografia. Venter fez parte da lista publicada pela revista Time em 2007 e 2008, como uma das pessoas mais influentes do mundo. Em maio de 2010, anunciou o que foi rapidamente considerado o primeiro grande avanço científico do milênio, ao sintetizar pela primeira vez vida artificial. (Nota da IHU On-Line).
3.- Raymond "Ray" Kurzweil (1948): inventor e futurista americano. Está envolvido com reconhecimento óptico de caracteres (OCR), reconhecimento de fala de tecnologia e instrumentos de teclado eletrônico. É autor de vários livros sobre saúde, inteligência artificial (AI), transumanismo, singularidade tecnológica e futurismo. (Nota da IHU On-Line).
IHU On-Line - Instituto Humanitas Unisinos -
ANJOS DA SEMANA - 07 a 13/06
por Tina Simão - tinasimao@gmail.com
Abaixo a relação dos anjos regentes dos dias do mês, na semana compreendida entre 07 a 13 de junho, bem como seus horários e salmos:
07/06 – ACHAIAH – 07º. anjo – 02.00 às 02.20 horas – salmo 102. Leia três vezes e faça seu pedido. Invoca-se este anjo para aumentar a paciência. Facilita o descobrimento dos segredos da natureza.
08/06 – CAHETHEL – 08º. anjo – 02.20 as 02.40 horas – salmo 94 e 95. Leia três vezes e faça seu pedido. Invoca-se este anjo para obter a proteção de Deus, para inspirar o homem a elevar-se. Ajuda a ter força para resistir e continuar sempre em frente.
Os gênios guardiães ou anjos acima pertencem à categoria angélica dos SERAFINS. O Príncipe (ou Arcanjo) regente dos Serafins é o Príncipe METATRON. Metatron, dentro do estudo dos Gênios Cabalísticos, é o Rei dos Anjos, o Príncipe de rosto divino. Governa todas as forças da criação em beneficio da humanidade. É o elo entre o humano e o divino. É o anjo mais alto no céu. Representa o poder da abundancia e a supremacia. Quando invocado pode aparecer como um pilar de fogo, o rosto mais ofuscante que o sol.
Esta categoria regida pelo Arcanjo Metatron, faz com que seus protegidos ou, as pessoas nascidas sob as datas de sua influência, sintam e tenham muita necessidade em trabalhar, estudar, compreender e praticar a espiritualidade, nas suas mais diversas formas e maneiras. E caso não pratiquem qualquer tipo de ação espiritual, seus protegidos apresentam doenças, em geral relacionadas a dores pelo corpo, resultantes do excesso de energia guardada e não usada.
1ª. Categoria – Serafins – Príncipe Metatron – vela branca ou prata.
Atributos de Metatron: abundancia, supremacia, elo entre Deus e os homens, espiritualidade, quando invocado pode aparecer como um pilar de fogo.
Invocação: “ Príncipe Metatron, que a tua luz me guie.
Ilumine meus caminhos, minha vida e minhas ações.
Que a tua luz sustente a minha fé.
Que a tua luz seja o elo da minha ligação com Deus.
Que pela tua luz eu possa compreender os desígnios divinos na minha vida.
E que eu possa sempre agir em nome da vontade do Supremo Deus sobre mim!
Que assim seja, assim seja e assim é!”
09/06 – HAZIEL – 09º. anjo – 02.40 às 03.00 horas – salmo 24. Leia três vezes e faça seu pedido. Este anjo ajuda a obter a graça de Deus, domina a bondade e a reconciliação. Influencia as promessas feitas de forma sincera e facilita os ganhos de causa para as pessoas inocentes.
10/06 – ALADIAH – 10º. anjo – 03.00 às 03.20 horas – salmo 32. Leia três vezes e faça seu pedido. Este anjo é invocado contra todas as doenças e as maldades. Facilita sempre a escolha do melhor caminho ou oportunidade.
11/06 – LAOVIAH – 11º. anjo – 03.20 às 03.40 horas – salmo 17. Leia três vezes e faça seu pedido. Invoca-se este anjo contra fraudes e para alcançar a vitoria. Faz com que todos os relacionamentos sejam fortes e duradouros.
12/06 – HAHAHIAH – 12º. anjo – 03.40 as 04.00 horas – salmo 09. Leia três vezes e faça seu pedido. Este anjo atua fortemente contra os adversários, faz revelações de todos os mistérios ocultos, principalmente em sonhos. Domina a serenidade, a moderação e o equilíbrio.
13/06 –– IESALEL - 13º. anjo – 04.00 às 04.20 horas – salmo 97. Leia três vezes e faça seu pedido. Este anjo facilita nas amizades e atua na felicidade conjugal. Auxilia na fácil compreensão de todas as situações.
Os gênios guardiães ou anjos acima pertencem à categoria angélica dos QUERUBINS. O Príncipe (ou Arcanjo) regente dos Querubins é o Príncipe RAZIEL. Raziel, dentro do estudo dos Gênios Cabalísticos, é o arcanjo dos mistérios. Reside em Chockmak, império das idéias puras. É o príncipe do conhecimento e guardião da originalidade. Devemos invocá-lo quando precisamos de informações e conhecimento sobre qualquer causa. Auxilia também nos estudos e na obtenção de conhecimento de todas as espécies. Acenda para este Arcanjo e para seu anjo, uma vela amarela quando estiver estudando para aprender e guardar conhecimentos com mais facilidade.
2a. Categoria – Querubins – Príncipe Raziel – vela amarela ou dourada.
Atributos de Raziel: conhecimento, sabedoria, estudos, originalidade, pode ser invocado para auxilio nos estudos, concursos, provas,estimula a energia de forma geral
Invocação: “ Príncipe Raziel, que a tua sabedoria e conhecimento me guiem.
Que eu possa agir em todos os momentos da minha vida através da tua sabedoria.
Que o teu conhecimento sagrado esteja em mim para que em nome do Deus Supremo, eu possa auxiliar e orientar todos aqueles que precisarem.
Que tua sabedoria proteja toda a humanidade.
Que assim seja, assim seja, e assim é! “
Não esqueça que em qualquer pedido angélico, em primeiro lugar está seu anjo regente do dia do seu nascimento, ou anjo guardião, e junte ao seu pedido a força do arcanjo, supervisor hierárquico do seu anjo.
Tina Simão
Clube STUM - Somos Todos Um - http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=22372
GERAÇÕES CATIVAS
por Verônica Dutenkefer - veveduten@yahoo.com.br
A geração que nasceu nas décadas de 60 e 70 cresceu e se desenvolveu cercada de proibições e censuras. A ditadura ainda estava presente e a geração de nossos pais e avós era repleta de tabus e regras bem rígidas.
Muito cedo, aprendemos sobre a frustração e medo. E os nossos sonhos de juventude eram a busca pela liberdade e independência.
Quando nos sentimos frustrados, além da raiva, geralmente temos que desenvolver nossa criatividade e flexibilidade para mudar nossos objetivos, nossos quereres ou o modo de consegui-los. E tentarmos novamente alcançá-los.
Fomos educados rigidamente e era comum ouvirmos: "Isso não pode". "Isso você não vai ter". E, então, acredito, que crescemos querendo provar aos adultos "tiranos" que conseguiríamos ter, ser e fazer o que nossos corações desejavam.
Sim, muitas vezes fomos traumatizados, humilhados e magoados. E talvez por isso, dentro de nós, desenvolveu-se o medo.
Mas como não éramos "salvos" ou "poupados" por nossos pais e educadores, tivemos que lidar com nossos medos para conseguir nos libertar desses traumas, humilhações e mágoas sozinhos.
E, fazendo isso, descobríamos nosso potencial, nossa coragem e nossas esperanças.
Essa geração cresceu e tornou-se pais. Pais mais permissivos e "salvadores".
"Não vou fazer com o meu filho o que fizeram comigo!"
E uma nova geração surgiu.
Os nossos filhos, nossos sobrinhos, nossos alunos, nossos vizinhos... Jovens e crianças que possuem uma liberdade que, definitivamente, não tivemos.
Mas, infelizmente, muitos deles se tornaram nossos "tiranos". Crianças e jovens que se tornam tiranos quando sentem-se frustrados por algum motivo. E assustados, os pais os salvam e evitam constantemente que eles vivenciem esse sentimento.
Os pais temendo a violência que, sem dúvida, aumentou muito, superprotegem seus filhos...
E esses jovens e crianças tão "livres" são mais cativos do que a geração que os precedeu.
Sim, eles têm a liberdade de se expressar, eles têm a liberdade de ter e ser o que eles quiserem ter e ser, mas como são constantemente protegidos e salvos, desconhecem completamente seus potenciais.
Eles são poupados para não sentirem tantas frustrações e, consequentemente, não desenvolvem completamente a criatividade, flexibilidade, coragem e esperança.
Desconhecem aquela sensação maravilhosa que a nossa geração sentiu ao conquistar, por seu próprio mérito, nossos quereres e objetivos.
Hoje basta eles abrirem a boca e dizer: "Eu quero!" E quase instantaneamente eles possuem. Possuem, mas não alcançam.
Costumo dizer aos meus clientes que uma das piores coisas que podemos fazer é mimarmos alguém.
Uma pessoa mimada recebe duas mensagens poderosas:
- "As pessoas são obrigadas a me servirem".
- "Se os outros fazem tudo para mim, é porque não sou capaz".
Pensamos que estamos salvando e poupando nossos jovens e crianças, quando na realidade, estamos tirando deles a verdadeira liberdade.
A liberdade de descobrir, conhecer e explorar seu potencial e poder.
A liberdade de criar e ter a coragem de ir atrás de seus sonhos para alcançá-los e realizá-los por seus próprios méritos.
A liberdade de arcar com as conseqüências e responsabilidades por suas escolhas.
As pesquisas mostram o aumento de doenças como a depressão e a síndrome do pânico entre jovens.
A tristeza prolongada por não terem metas e objetivos...
O pânico por acreditar serem frágeis e incapazes.
A insegurança por desconhecerem seus próprios potenciais.
E, então, surge o questionamento:
Essa geração é realmente livre?
A antiga geração era cativa por tabus, proibições, censuras e regras inflexíveis.
A geração atual é cativa por suas inseguranças, fragilidades e ignorância de suas capacidades.
Vivemos num mundo de polaridades. E buscamos sempre o equilíbrio.
Espero que da vivência de gerações tão opostas, surja uma geração equilibrada e realmente livre!
Uma geração que não precise guerrear, nem temer demais.
Uma geração de magos que consigam aprender, tornar-se sábios e transformar o mundo através do amor, respeito e ternura.
Compreendendo e perdoando as gerações passadas e preparando bem melhor as gerações futuras.
Verônica Dutenkefer
31/10/2009
A geração que nasceu nas décadas de 60 e 70 cresceu e se desenvolveu cercada de proibições e censuras. A ditadura ainda estava presente e a geração de nossos pais e avós era repleta de tabus e regras bem rígidas.
Muito cedo, aprendemos sobre a frustração e medo. E os nossos sonhos de juventude eram a busca pela liberdade e independência.
Quando nos sentimos frustrados, além da raiva, geralmente temos que desenvolver nossa criatividade e flexibilidade para mudar nossos objetivos, nossos quereres ou o modo de consegui-los. E tentarmos novamente alcançá-los.
Fomos educados rigidamente e era comum ouvirmos: "Isso não pode". "Isso você não vai ter". E, então, acredito, que crescemos querendo provar aos adultos "tiranos" que conseguiríamos ter, ser e fazer o que nossos corações desejavam.
Sim, muitas vezes fomos traumatizados, humilhados e magoados. E talvez por isso, dentro de nós, desenvolveu-se o medo.
Mas como não éramos "salvos" ou "poupados" por nossos pais e educadores, tivemos que lidar com nossos medos para conseguir nos libertar desses traumas, humilhações e mágoas sozinhos.
E, fazendo isso, descobríamos nosso potencial, nossa coragem e nossas esperanças.
Essa geração cresceu e tornou-se pais. Pais mais permissivos e "salvadores".
"Não vou fazer com o meu filho o que fizeram comigo!"
E uma nova geração surgiu.
Os nossos filhos, nossos sobrinhos, nossos alunos, nossos vizinhos... Jovens e crianças que possuem uma liberdade que, definitivamente, não tivemos.
Mas, infelizmente, muitos deles se tornaram nossos "tiranos". Crianças e jovens que se tornam tiranos quando sentem-se frustrados por algum motivo. E assustados, os pais os salvam e evitam constantemente que eles vivenciem esse sentimento.
Os pais temendo a violência que, sem dúvida, aumentou muito, superprotegem seus filhos...
E esses jovens e crianças tão "livres" são mais cativos do que a geração que os precedeu.
Sim, eles têm a liberdade de se expressar, eles têm a liberdade de ter e ser o que eles quiserem ter e ser, mas como são constantemente protegidos e salvos, desconhecem completamente seus potenciais.
Eles são poupados para não sentirem tantas frustrações e, consequentemente, não desenvolvem completamente a criatividade, flexibilidade, coragem e esperança.
Desconhecem aquela sensação maravilhosa que a nossa geração sentiu ao conquistar, por seu próprio mérito, nossos quereres e objetivos.
Hoje basta eles abrirem a boca e dizer: "Eu quero!" E quase instantaneamente eles possuem. Possuem, mas não alcançam.
Costumo dizer aos meus clientes que uma das piores coisas que podemos fazer é mimarmos alguém.
Uma pessoa mimada recebe duas mensagens poderosas:
- "As pessoas são obrigadas a me servirem".
- "Se os outros fazem tudo para mim, é porque não sou capaz".
Pensamos que estamos salvando e poupando nossos jovens e crianças, quando na realidade, estamos tirando deles a verdadeira liberdade.
A liberdade de descobrir, conhecer e explorar seu potencial e poder.
A liberdade de criar e ter a coragem de ir atrás de seus sonhos para alcançá-los e realizá-los por seus próprios méritos.
A liberdade de arcar com as conseqüências e responsabilidades por suas escolhas.
As pesquisas mostram o aumento de doenças como a depressão e a síndrome do pânico entre jovens.
A tristeza prolongada por não terem metas e objetivos...
O pânico por acreditar serem frágeis e incapazes.
A insegurança por desconhecerem seus próprios potenciais.
E, então, surge o questionamento:
Essa geração é realmente livre?
A antiga geração era cativa por tabus, proibições, censuras e regras inflexíveis.
A geração atual é cativa por suas inseguranças, fragilidades e ignorância de suas capacidades.
Vivemos num mundo de polaridades. E buscamos sempre o equilíbrio.
Espero que da vivência de gerações tão opostas, surja uma geração equilibrada e realmente livre!
Uma geração que não precise guerrear, nem temer demais.
Uma geração de magos que consigam aprender, tornar-se sábios e transformar o mundo através do amor, respeito e ternura.
Compreendendo e perdoando as gerações passadas e preparando bem melhor as gerações futuras.
Verônica Dutenkefer
31/10/2009
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http://somostodosum.ig.com.br/clube/c.asp?id=20140
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