por Flávio Gikovate (13/03/2009)
Aos 65 anos de vida, 41 de clínica, mais de 20 livros publicados, o médico psiquiatra Flávio Gikovate apresenta em seu último lançamento “Uma história do amor... com final feliz” (MG Editores) um novo modelo nas relações afetivas: “o amor do século 21 não será mais essa idéia de fusão de duas metades, e sim a aproximação de dois inteiros. Uma coisa mais parecida com a amizade, com mais afinidade intelectual do que física". Essas reflexões a cerca do amor do futuro, entre outras, ele nos apresentou durante uma conversa. Confira trechos da entrevista concedida por Gikovate à equipe do site Atmosfera Feminina.
AF - Para onde caminha a relação homem e mulher nos tempos modernos?
FG - Os relacionamentos estão mudando, de forma lenta, é verdade, mas estão mudando. O número de pessoas que buscam parceiros e afins, com os quais se estabelece uma relação de companheirismo, lealdade e confiança recíproca (exatamente como nas amizades sinceras), tem aumentado. Relações desse tipo são estáveis, duradouras e correspondem ao que chamo de mais amor, único tipo de relacionamento capaz de sobreviver a um mundo em que cada vez é mais interessante ficar sozinho. Um relacionamento em que a individualidade de cada um é respeitada.
AF - As conquistas profissionais e a independência da mulher afetaram de que maneira as relações dos casais?
FG - A independência sexual, emocional e financeira das mulheres vai interferir muito nos novos relacionamentos. A necessidade de independência vem desde cedo no ser humano. O adulto é como a criança: quer estar no colo da mãe, mas também quer brincar. Só que mudaram as prioridades. Antes, o amor ganhava da individualidade por que não havia o que fazer com a individualidade. Não tinha televisão, meio de transporte. Hoje temos inúmeras tecnologias, 100 canais de TV que facilitam os momentos de lazer e o ipood para ouvir música sozinho. Ou seja, a individualidade é um bem precioso, que ninguém quer (e não deve) abrir mão para viver com alguém. Os homens não serão mais protetores ou provedores e sim companheiros de viagem. E a idéia de amor cultivada principalmente pelas mulheres, muito ligada ao casamento, terá de ser desfeita. Não é um caminho fácil, mas o mundo está mudando (ou melhor, nós o mudamos) e temos de nos adequar a ele.
AF – A convivência pode ser afetada pela instabilidade financeira?FG - Pode. Por isso é tão necessário e urgente que a união aconteça entre pessoas com afinidades, com planos e projetos semelhantes, e não entre opostos como geralmente acontece. Quem procura o seu oposto, está buscando a tal “metade”, alguém para preencher uma sensação de incompletude. Mas essa sensação de que falta alguma coisa não pode ser preenchida por outra pessoa. Temos de nos resolver em si mesmos antes de nos unir a alguém.
AF – Qual o peso da afinidade, da auto-estima, da individualidade e da sexualidade numa relação a dois?FG - Todos são fatores determinantes para uma relação de boa qualidade. É preciso encontrar um parceiro com o qual valha a pena jogar o jogo da vida em dupla. Deixa de ser necessário e passa a ser uma escolha. Mais do que isso: uma possibilidade, porque depende de encontrar o parceiro. E, claro, tem de ter afinidade, principalmente intelectual para compartilhar projetos, filhos, profissão, etc.
AF - Como está a saúde mental da mulher contemporânea?FG - As mulheres estão um tanto mais ansiosas e deprimidas do que antes por vários motivos. Dentre os principais estão o aumento das responsabilidades profissionais (assumem funções cada vez mais diferenciadas e onde são mais severamente avaliadas) e a dificuldade de compatibilizar uma atividade de trabalho assim exigente e competitiva com os anseios sentimentais e domésticos que ainda lhes são característicos.
AF – Na sua opinião, por que o amor e a individualidade não caminham na mesma direção?FG - O amor romântico – ciumento, opressivo e sufocante – não tem mais chances de dar certo por que é incompatível com o desejo crescente do individualismo. Aos poucos, as pessoas estão reconhecendo o quão imaturo e desgastante é o amor tradicional que conhecemos. No mundo moderno, em que há muita atividade individual e interesses individuais, o amor como remédio não funciona porque ele é possessivo e exclui a liberdade. Isso ninguém tem suportado mais. Este amor vai ter de ser substituído por outra qualidade de relação. Os relacionamentos que vão durar são aqueles que aproximarem duas pessoas inteiras, e não duas metades.
AF – Qual a diferença entre amor-próprio e egoísmo? Até onde a mulher pode doar? Existe um equilíbrio?
FG - Pessoas mais egoístas são essencialmente mais “do mal”. Elas precisam receber mais do que estão dispostas a dar e isso as torna oportunistas e não confiáveis, são intolerantes a frustrações, de modo que não abrem mão de seus desejos mesmo se isso vier a prejudicar o parceiro. O amor-próprio, em princípio, não torna a pessoa egoísta. É apenas um indicativo de que a auto-estima está num bom nível. O oposto do egoísta é ser “do bem”, o que também não é muito bom porque tais pessoas, as mais generosas, alimentam a pior parte da alma dos egoístas. A visão de que todos temos dentro de nós o bem e o mal está mais que tudo a serviço de tumultuar os fatos e beneficiar os egoístas. Ninguém é santo, mas existem os egoístas, os generosos e os mais justos, que dão e recebem na mesma medida.
AF – A “instituição casamento” está com os dias contatos? Por quê?FG - Os casamentos que unem duas metades, certamente, estão com os dias contados, embora sejam ainda os que mais acontecem. O problema decorre da falta de compreensão sobre o que de fato representa viver em comunhão. E, definitivamente, não é fazendo concessões e sufocando a individualidade que as relações vão se sustentar. O divórcio é fruto desse desentendimento. A maioria dos divórcios é de iniciativa da mulher. Porque casamentos de má qualidade são mais desgastantes para ela, que é quem culturalmente faz mais concessões no relacionamento.
AF – Na sua opinião, por que as razões que levavam as mulheres a se casar não se sustentam mais?FG - Porque a vida da mulher não é mais a mesma depois da pílula anticoncepcional e da independência financeira. Uma mulher solteira não é mais discriminada socialmente, pode ter vida sexual com seus parceiros sem se casar, pode se sustentar perfeitamente, etc., ou seja, as mudanças concretas do mundo numa direção mais individualista melhoraram muito a qualidade de vida das pessoas solteiras, especialmente a das mulheres.
AF - Como fica o sexo neste novo contexto?FG - Se o casal atingiu um bom nível de maturidade, em que há respeito pela individualidade, o sexo vai fluir naturalmente. Mas o sexo é um problema porque, em nossa cultura, ele vai melhor quando há briga. As pessoas gostam mais de transar com inimigos do que com amigos. Isso mostra como precisamos avançar no entendimento da questão sexual. Ainda é preciso inventar um erotismo que não seja comprometido com vulgaridade e violência. Para superar isso, é preciso ser criativo e entender que as leis da atração sexual não são as mesmas das relações afetivas de boa qualidade. Na hora do sexo, talvez seja necessário mudar o canal, no qual o outro tem de deixar de ser o parceiro sentimental para ser o outro. É assim que os casais que se amam de verdade descobrem estratégias para que o sexo flua.
AF – Você acredita que a mulher contemporânea deixou a maternidade em segundo plano?FG - Para muitas sim, justamente porque é a parte mais difícil de conciliar com uma atividade profissional mais responsável e competitiva.
AF - É possível encontrar um equilíbrio entre a vida profissional, social e a afetiva?FG - É muito difícil conciliar a vida profissional competitiva com uma vida conjugal -- e principalmente com a maternidade -- igualmente bem sucedida e gratificante. Esse é um dos grandes desafios da contemporaneidade e tornar-se-á mais importante ainda porque cresce rapidamente o número de mulheres mais bem preparadas profissionalmente, inclusive mais do que os homens (lembro que nas universidades de todo o mundo, as mulheres representam 60% dos estudantes).
AF – A importância que a mulher ainda dá para o amor é a mesma de tempos atrás?FG - Acho que a grande maioria ainda atribui ao amor a mesma importância. Um número maior do que anteriormente atribui à independência financeira e sucesso profissional papel de igual relevância. Ainda assim essas também costumam conservar suas aspirações sentimentais.
AF – Os jovens estão experimentando mais com o “ficar”? Por quê?FG - O “ficar” é a intimidade física sem compromisso entre um rapaz e uma moça da mesma faixa etária e da mesma classe social. Trata-se de uma ótima forma para que ambos se familiarizem com as sensações eróticas num contexto protegido em que não existe risco de irem às vias de fato, já que, em geral, encontram-se sempre em lugares públicos.
AF – Com o aumento da expectativa de vida, qual será o novo modelo de relação na terceira idade?FG - A vida sexual e sentimental das pessoas na terceira idade será exatamente a mesma das fases anteriores: pessoas mais velhas se divorciam e casam de novo (ou então têm parceiros estáveis ou esporádicos). A vida média se estendeu de uma forma surpreendente e com boa qualidade de vida, de modo que a terceira idade ficou muito parecida com a "segunda".
AF - Para onde caminhará o amor na próxima década? Qual é o papel da mulher neste contexto?FG - As relações afetivas estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. A maturidade emocional é uma conquista, você aprende a dar na mesma medida em que recebe. E isso incluiu trabalhar a individualidade. A mulher que se acostuma a viver vários relacionamentos que acabam não dando certo está insistindo na noção de amor antiquada, que não leva em conta que o mundo mudou. Portanto, o primeiro passo para atingir a maturidade é aceitar esse processo de mudança e buscar uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
AF – Fale um pouco do seu trabalho, sobre o último lançamento “Uma história do amor... com final feliz”.
FG - Desde 1966, quando me formei médico psiquiatra pela USP e fui assistente clínico do Institute of Pschiatry na London University, hoje com 65 anos, tive uma certeza sobre minha carreira: nunca me filiaria a escolas ou aceitaria doutrinas acadêmicas. Isso não quer dizer, claro, que não sofreria influências de vários pensadores. Minha grande fonte de inspiração como escritor, no entanto, em 41 anos de carreira, tem sido os meus próprios pacientes. Cerca de 8 mil já passaram pelo meu consultório. Hoje, atendo muitos pacientes em São Paulo, Nova York e Londres. Além disso, tenho um programa diário na rádio, respondo a perguntas dos ouvintes.
Sobre o meu mais recente livro, uma “história do amor”, quis abordar o sentimento no seu significado mais amplo. Não é uma história de amor qualquer. Ele tem dois finais: um é ficar sozinho; outro, bem-acompanhado. Ambos representam a vitória da individualidade. Mas a união tem de acontecer entre pessoas semelhantes, com os mesmos planos e projetos, e não entre opostos. Infelizmente, a união entre opostos – um generoso e um egoísta – é algo que acontece até hoje. Para mim, esse é o maior erro que as pessoas cometem nos relacionamentos.
13/03/2009
Atmosfesra Feminina -
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